Reflexões sobre moda

31 de outubro de 2015


Há algumas semanas rolou as grandes semanas de moda do mundo, inclusive a SPFW, o que sempre faz com que muita gente comece a refletir mais seriamente sobre o assunto. Juntando se a isso, podemos citar também as repentinas saídas de dois estilistas renomados de grandes marcas de moda: Alber Elbaz na Lanvin e Raf Simons na Dior. Só para citar as mais recentes. O que suscitou uma discussão que acho bem pertinente para o nosso atual momento, não só na moda mas economicamente também. Será que a ambição desenfreada por alcançar metas e lucros, está matando a liberdade de criação dos estilistas de marcas pertencentes a grandes conglomerados? Sim, ou com certeza?

Não sou do ramo da moda, nem sequer estudei moda, mas sou apaixonada pelo tema e sempre li sobre isso, desde muito nova. E acho que até por ser uma consumidora de moda também, talvez eu tenha algo a dizer sobre o assunto, inspirada em todo o material que ando lendo ultimamente. Afinal, moda é uma  forma de expressão e arte mais democrática que mesmo inconscientemente é usada por todos nós todos os dias.

Quem trabalha com vendas, de uma certa forma consegue entender muito bem a pressão insuportável a que esses estilistas são submetidos. As inúmeras coleções por ano que precisam criar, o retorno financeiro que são obrigados a trazer, os elogios da crítica que devem inspirar. Essa é uma característica do momento econômico em que vivemos não só na moda, mas em todos os segmentos em que o lucro é o principal foco; a busca quase insana e irracional por atingimento de metas, mais e mais inatingíveis e fora da realidade. O que você atinge hoje, não interessa mais amanhã, amanhã são outras metas. Quando você acha que respira no final do mês quando finalmente entrega um bom resultado, já começa outro mês, e já é exigido de você o dobro daquilo que você fez. É desgastante! É brutal!

Desfile de primavera/verão Lanvin 2016

Quando se fala em moda ou em qualquer outro processo criativo, você percebe como a questão "dinheiro" engessa a liberdade de criação do designer, artista, inventor, criador. Você precisa criar, de forma genial, e original, algo que desperte desejo de consumo, crie uma esfera de identificação, e o mais importante; que dê lucro ao conglomerado a qual a sua marca faz parte. Em pouco tempo você acaba percebendo que você está criando não para o seu público, mas para o CEO da sua empresa. Dá pra entender como isso mata a criação?

Se pensarmos na moda a uns 40 anos atrás, quando você comprava uma peça de roupa de determinado estilista, você estava também comprando uma ideia de lifestyle, uma visão de mundo, uma identidade e uma forma de olhar para mulher (ou homem). Havia uma projeção clara dos ideais do criador naquela peça. Ou seja, cada marca tinha uma identidade, que você podia ou não se identificar. Havia espaço para novas abordagens, novos olhares, novos questionamentos, inclusive de cunho social.

Hoje isso se diluiu, ou foi trocado por pesquisas de mercado, identificação de tendências e manipulação do consumo. Isso é importante? Sim, também é, afinal moda é um negócio. E de uma forma mais sutil, também era usado a 40 anos atrás. O problema é que hoje cada vez menos se dá valor a criação, ao processo criativo propriamente dito do designer, que envolve experiências pessoais, emoções, que servem de inspiração para criar moda de forma significativa e ao mesmo tempo que convença os clientes a comprar aquela ideia genial.

Não existe criação original quando ela é voltada exclusivamente para o comercial. Não há criação original e impactante quando não há liberdade do ato criador, e isso é muito nítido. Não há um envolvimento emocional, entende?

Desfile de primavera/verão Dior 2016

É por isso que hoje tem se a sensação de que todos os desfiles se parecem. Foi identificado por agências de tendências um certo desejo de consumo e todas as marcas investem pesado nessa tendência. Você percebe que há uma pasteurização da criação de moda.

Quer um exemplo prático sobre isso? Vamos fazer um paralelo com a moda mais popular, que invariavelmente, segue as tendências das grandes marcas. Sempre fui consumidora de Fast Fashion, por ser mais acessível. Lembro que estava, como sempre, a procura da camisa branca com caimento perfeito, e ainda estou porque é bem difícil encontrar numeração de gente normal nessas grandes lojas. Parece que são feitas para pessoas com 1.50 metros de braços, ou para pessoas com um 1,50 metros de costas. Se você buscar em sua memória recente, vai lembrar que a mais ou menos um ano e meio atrás havia a febre das camisas transparentes, que eu não aderi, porque não curto, mas as Fast Fashions faziam questão de me empurrar goela baixo a dita cuja. Sério parece brincadeira, mas em TODAS as lojas era só isso que você encontrava.

Por isso tudo, e acreditando que esse cenário não mudará tão cedo, muitos veem as pequenas marcas como os verdadeiros expoentes da moda atual que possuem mais liberdade para criar novos conceitos de vestir e de se expressar. As grandes marcas terão ainda a sua influência, mas perderão muito espaço se não reverem seus posicionamentos. E cada vez mais veremos grandes estilistas se despedirem das grandes maisons para se dedicarem as suas próprias marcas, ou se juntarem a outras que tenham um perfil mais low profile.

E você o que acha sobre o assunto? Dê a sua opinião nos comentários!


Imagens de cima pra baixo:
http://www.fashionbubbles.com/bubbles/confira-o-calendario-da-moda-brasileira-e-internacional/
http://www.lilianpacce.com.br/desfile/lanvin-primavera-verao-2016/
http://www.lilianpacce.com.br/desfile/dior-primavera-verao-2016/
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